Principal
 Sertão, velho sertão nordestino - 28 de Agosto de 2016 às 08:53

               Antes da chegada do colonizador as terras já eram ocupadas pelas tribos indígenas Janduís e Paiacus. Mas na passagem devastadora dos povoadores dos Sertões, os primitivos habitantes foram sendo escravizados, massacrados e expulsos de suas terras e nessas, os povoadores fincaram os mourões das porteiras dos currais de gado. Já não havia mais lugar para os nativos. Assim começou o desbravamento do Sertão potiguar.
               Sertão, velho Sertão nordestino. Sertão de lutas, de agruras, Sertão sofredor. Se o ano for de seca, a sede, a fome e a desgraça amedrontam o sertanejo; se for ano de chuva, a fartura, a beleza do campo e o cantar da passarada alegram aquele torrão. Terras que no dizer de Euclides da Cunha são “barbaramente estéreis, maravilhosamente exuberantes”.
               O vocábulo sertão, nos primórdios do povoamento brasileiro, designava todas aquelas regiões ainda não povoadas ou ainda mal ocupadas do país. Como a natureza hostil do interior do Nordeste dificultou a fixação humana da região, gerando uma ocupação rarefeita de lento e penoso adensamento, moldando o isolamento das comunidades, foi consagrado o nome sertão para todo aquele imenso território coberto pelas caatingas.
               Podemos dizer que foi o gado o desbravador do Sertão. Os imensos canaviais da costa das capitanias do Nordeste eram as bases de uma economia mercantilista que fez com que o litoral bastasse aos portugueses. Toda a terra fértil, próxima ao litoral, estava destinada, por determinação da Coroa, ao cultivo exclusivo da cana-de-açúcar. Não sobrava, dessa forma, espaço para o desenvolvimento de atividades acessórias como a pecuária, que fornecia carne e força motriz aos engenhos. Daí surgiu, no litoral, a necessidade de separação entre a monocultura da cana e a pecuária. Uma Carta-Régia de 1701 determinava que as dez primeiras léguas, a partir da batida do mar (aproximadamente 60 Km), eram destinadas à cana-de-açúcar. Para o gado, sobrava o Sertão. Foi no interior das capitanias, como a do Rio Grande do Norte, que o criatório mais se desenvolveu, mesmo com a resistência indígena contra os primeiros assentamentos de fazendas.
               Oswaldo Lamartine dizia que “a semente do gado trazida do reino para cá foi inicialmente para suprir a necessidade de força do cangote do boi no giro tardo das almanjarras dos engenhos, ou no gemer lamuriento das cantadeiras dos carros de boi, carregando cana e lenha, de vez que os trapiches requeriam sessenta bois, dos quais moíam de doze em doze horas revezados. Depois, à medida que crescia a parição foi, então, havendo maior aproveitamento do leite, das carnes e dos couros”.
               E foi assim que os caçadores se internaram no Sertão, rompendo pelos caminhos das águas, ou da areia, já que na estiagem os rios secavam. A marcha era lenta e penosa, castigada pelo sol abrasador, pela sede, rasgando as carnes nos espinhos da sarjadeira, da jurema, do sabiá, da macambira, da quixadeira, do juazeiro, do cardeiro ou do xique-xique, muitos perdendo a vida pelas flechas do caboclo brabo ou pela picada venenosa da jararaca ou cascavel.
               Quando encontravam terras propícias, principalmente próximas a algum rio, eram fincados os currais. As cabanas eram construídas de madeira e palha, tendo o couro como elemento fundamental. Era a época do couro, como nos ensinou Capistrano de Abreu, pois as portas das cabanas eram de couro, o rude leito aplicado ao chão duro, e, mais tarde a cama, eram de couro, todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforje para levar a comida, como também a mala em que se guardavam as roupas, a mochila para milhar o cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, as bainhas das facas, as bruacas, os surrões, a roupa de entrar no mato, os banguês para costumes ou para apurar sal.
               Com a implantação dos currais, consolidavam-se os aglomerados. Como religiosos fervorosos que eram, logo construíam uma capela e ao seu redor surgiam as casas, sendo a do fazendeiro a mais vistosa. Nessa, instalavam-se e moravam alguns dependentes da família: os filhos, os parentes e os aderentes. O fazendeiro era uma espécie de figura de patriarca, senhor absoluto de sua vontade e, por isso, respeitado por todos, no meio daqueles sertões obscuros, por vezes violentos. Também eram padrinhos de toda meninada.
               Desse modo, a fazenda era um centro de aglutinação de pessoas que se juntavam aos que viviam no mesmo regime de família, constituída de filhos e parentes, agregados, vaqueiros, homens de confiança para qualquer serviço. O apego ao clã constituía uma espécie de credo de união do grupo tão diverso. “Tocou em um, tocou em todos”, era essa a lei do Sertão.
               No caso do Sertão potiguar, algumas fazendas transformaram-se em povoados, em vilas, e deram origem, dentre outras, às cidades de Açu, Apodi, Caicó, Portalegre, Pau dos Ferros, Currais Novos, Mossoró e Acari.
               Mas os primitivos donos das terras não aceitaram facilmente a presença do colonizador. Estes agiam sempre com violência sobre a população indígena. Os índios não aceitavam entregar suas terras e também não aceitavam ser escravizados. Quando os portugueses não conseguiam aprisioná-los, matavam-nos. Revoltados, e já quase extintos, os índios da Capitania do Rio Grande do Norte uniram-se aos das Capitanias do Ceará, de Pernambuco e da Paraíba e decidiram atacar as fazendas e os povoados do interior, incendiando casas e plantações, matando o gado, os colonos e os vaqueiros. Essa revolta foi chamada de “Guerra dos Bárbaros” ou “Confederação dos Cariris”. Foram 13 anos de luta, estendendo-se de 1687 até 1700.
               Com a apaziguamento do indígena, esse tornou-se o melhor auxiliar dos fazendeiros. No Sertão, predomina o mameluco ou caboclo, mestiço de branco e índio. É o nosso vaqueiro. Vaqueiro das caatingas áridas, das criações sem cercas, separadas por ribeiros.
               No século XVIII, a economia baseava-se, essencialmente, em duas fontes: na agricultura e na indústria pastoril. Mas, havia sempre o fantasma da seca que tudo extinguia, obrigando os sertanejos a abandonarem os seus “torrões”. Essas secas, ao contrário do que se possa imaginar, “vêm de datas antiguíssimas na nossa cronologia histórica”. A primeira que se tem notícia data de 1600, em pleno século XVII. A seca atinge, e muito, a pecuária, desorganizando a criação de gado. No século XVII, foram registradas cerca de quatro secas (1600, 1614, 1691 e 1692) e, no período seguinte, o fenômeno repetiu-se em número bem maior, num total de vinte e uma (1710, 1711, 1723, 1724, 1726, 1727), dentre outras.
               Diante da miséria, os sertanejos humildes valiam-se da sua fé e logo surgiam os beatos, apresentando-se enviados de Deus para redimir os pecados daquela gente sofrida. Prometiam, através da oração e do sacrifício, atingir a felicidade eterna. Alguns desses beatos conseguiam formar comunidades como foi o caso de Antônio Conselheiro que criou a comunidade de Canudos, no sertão da Bahia, e do beato José Lourenço que criou a comunidade do Caldeirão, no e cearense.
               Em todos os casos, essas comunidades foram perseguidas e destruídas de maneira cruel pelos coronéis e pelos poderosos da região. O sertão do Rio Grande do Norte também abrigou a uma dessas comunidades, cujos habitantes eram conhecidos como os “Fanáticos da Serra de João do Vale”. Esse movimento teve início com o beato Joaquim Ramalho que, segundo Câmara Cascudo, era gordo, lento, apático, sujeito às cismas, meditações longas, o olhar parado, acompanhando um pensamento misterioso.
               A tendência mística, afirma-se, com poucos anos, nas orações sem fim, nos passos ritmados, braços para o firmamento, rezando missas, impondo penitências. O beato Joaquim Ramalho cresceu e, adulto, casou-se, passando a morar na vila do Triunfo. Continuou, entretanto, com o mesmo comportamento estranho, rezando sempre.
               No final de 1894, morreu o vigário de Triunfo, padre Manuel Bezerra Cavalcante, com oitenta anos, sendo chorado por toda a comunidade. No ano de 1898, Joaquim Ramalho teve um ataque, assim descrito por Câmara Cascudo: “bruscamente parou, nauseante, gorgolhando vômitos e caiu de bruços, pesadamente”. Durante a crise começou a cantar. Quando recobrou os sentidos, não se lembrava de nada. O fenômeno repetiu-se nas tardes seguintes. A notícia se espalhou rapidamente, crescendo o número de curiosos, todos querendo assistir a cena. Estava nascendo mais um líder místico no sertão nordestino.
               
               Continua
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 Descrição bucólica de uma viagem a Tibau - 17 de Julho de 2016 às 18:27

               Viajar para Tibau hoje, pela RN-013, leva apenas 32 minutos de carro, se houver pouco trânsito. Como dizemos por aqui, “é um pulo”. Mas antes era diferente. Em 1920, por exemplo, para se fazer essa mesma viagem, levava-se o dia todo viajando em carro-de-boi, percorrendo as oito léguas que separavam Mossoró daquela comunidade. E precisava de um planejamento bem maior. E como acontecia:
               Nas férias escolares, algumas famílias se preparavam para passar meses na praia de Tibau. Dias antes, começavam as arrumações. Em sacos e trouxas eram guardados objetos caseiros, redes, roupas, lençóis e alimentos.
               No dia marcado, a família se levantava cedo. Às seis horas, o carro-de-boi estava pronto. A capota de esteira feita com palha de carnaúba, protegia os viajantes contra o sol e a chuva. Puxado por três a quatro juntas de boi, sendo a primeira ao pé do carro, a mais forte. Ligadas por um cambão - trave que passava por cima dos pescoços, formando a parelha. Esse cambão também era chamado de “canga dos bois”. Dois paus de madeira forte enfiados no cambão, ficavam de cada lado do pescoço da rês, dificultando os movimentos da cabeça. Na longa viga, saída do centro do carro, o timão, atrelavam a parelha e, no cabeçalho, prendiam a canga.
               O carreiro portava relho e vara com ferrão para tanger os animais. Em geral, viajava sentado numa das quinas, à frente da carroceria, com as pernas para fora. Levava um jovem companheiro, montado num burro, que cavalgava à frente ou atrás da viatura. Atendia a mandados e tratava das rezes.
               Embaixo do estrado, eram pendurados dois grandes chifres – um com sebo e outro com carvão vegetal pulverizado. A mistura dessas substâncias era colocada nos eixos das rodas. Quando em movimento, produzia grande rugido e evitava incêndio.
               Preso ao veículo, haviam dois sacos de couro curtidos, com gargalos e tampas, cheios de água. Serviam aos passageiros e aos animais. No estrado além dos pneus dos lados, fixavam um banco à frente e dois atrás, sendo um de cada lado.
               Após o café da manhã, cada pessoa, carregando sua bagagem, tomava o transporte. Pouco depois das seis horas , partia-se, ante os gritos aboiantes do carreiro: Ei, boi! Repetia esse grito a todo instante. O soar do eixo, rodando, era ouvido ao longe. Assim a comitiva deixava a cidade, numa viagem que duraria o dia todo. Às 10 horas e meia, davam uma paradinha para o almoço, normalmente num sítio, no lugar Grossos. Os bois eram desencangados, levados a beber água, pastar e descansar.
               Às duas e trinta da tarde, atrelavam outros bois e partiam. Às cinco horas já se avistava Tibau, mas era preciso outra meia hora para se chegar ao destino.
               As casas em sua maioria eram de taipa, alpendradas, cobertas de palha de carnaúba, e rebocadas de barro amarelo. Da cacimba rasa no quintal, fluía água claríssima. Os recém-chegados tratavam de armar as redes e procurar acomodações.
               A praia de Tibau era rica em peixes e camarões, apanhados em tresmalhos. Pescadores trabalhavam apenas duas vezes por semana. O resto da semana passavam tomando cachaça.
               Terminada as férias, a família regressava da mesma maneira. As areias das dunas, de tonalidades diversas, ofereciam paisagem sui generis ao visitante.
               Era assim que se viajava a Tibau nos anos vinte, numa descrição bucólica.
               
               
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 Réquiem a Nilson Gurgel - 03 de Julho de 2016 às 10:41

               Requiem aeternam dona eis!
               
               
               Viveu intensamente sua vida, sem medo de ser feliz. Teve vitórias e fracassos, alegrias e tristezas, emoções e decepções, mas nunca perdeu a alegria de viver. Era assim Nilson Gurgel. As vicissitudes da vida, tal qual o bambu dos ensinamentos chinês, o dobraram, mas nunca o quebraram. Não foi perfeito (ninguém o é): errou muito, magoou pessoas que o amavam, mas também foi muito magoado por pessoas que amava. Perdoava a todos, não guardava mágoas no coração. Ajudou a muitos que necessitavam, não se apegou a bens materiais.
               Conheci-o logo que cheguei a Mossoró em 1998 e tornamo-nos irmãos. Frequentava minha casa como se fosse a sua. Eu sempre lhe dei essa liberdade. Sempre que estava em Mossoró, nos finais de semana, bebíamos e comíamos como se fosse uma eterna festa. Dava cambalhota na piscina como se fosse um menino. Adorava exibir as suas habilidades físicas. Gostava de boas músicas e dividíamos sempre esse prazer. Um dia me presenteou com um CD de músicas que tinha gravado, em cujo rótulo, cuidadosamente preparado, estava escrito: “Recordar é viver duas vezes. Como quero ser lembrado daqui a cem anos quando morrer, se morrer. Nilson, Asuncion-PY – 08/2009”. Enquanto escrevia essas linhas, ouvia as músicas com as quais ele gostaria de ser lembrado. Foi a maneira que encontrei para senti-lo novamente ao meu lado.
               Amava os cavalos. Cavalgar era terapia para ele. Fazia grandes percursos em companhia de outros aficionados, em dias maravilhosos de relaxamento e prazer. Esses dias eram realmente inesquecíveis, motivo de resenhas para muito tempo.
               Tão intensamente viveu que foi preciso uma série de males simultâneos para pôr fim a sua vida. Apegou-se a vida enquanto pode. Mas um dia foi vencido e a fortaleza, que era o seu corpo físico, definhou. Já não lembrava mais o Nilson Gurgel que todos conheciam. Magro, sem cabelos e sem força para se deslocar, sequelas da quimioterapia, sofria mais pela imobilidade do que pelos males que o consumia. Até que um dia entregou sua alma a Deus. O seu corpo foi sepultado no solo de Mossoró, terra que tanto amou.
               Como diz a frase latina que encabeça esse texto, “que Deus te dê descanso eterno”, meu amigo. Descanse em paz!
               

Seção: Especiais | 0 Comentário(s) »  

 Notas avulsas sobre Mossoró do passado - 22 de Maio de 2016 às 15:36

               Em velhas atas da Câmara Municipal de Mossoró do início do Século passado, pescamos algumas informações, reminiscências da cidade, que nos dão exata dimensão do seu cotidiano. As decisões tomadas pela edilidade, como era a cidade na época, quais os seus moradores de destaque e muitas outras curiosidades que ajudam a conhecer como se formou a Mossoró de hoje.
               Através desses documentos ficamos sabendo, por exemplo, que em 1905 a cidade era formada por 920 casas, entre térreas e sobrados, excetuando-se desse número os seguintes edifícios: Igreja Matriz, Igreja Coração de Jesus, Capela da Conceição, Cemitério Público e Capela de São Sebastião, Mercado Público, Matadouro, Casa de Detenção, Colégio Diocesano, Casa de Aulas Municipais, um colégio em construção e o edifício da Loja Maçônica 24 de junho. Dessas casas, 620 eram de tijolos, cobertas de telhas e 300 de taipa.
               Numa ata datada de 17 de janeiro desse mesmo ano tomamos conhecimento de que a Intendência (Prefeitura) elevou a verba da Limpeza Pública para 2.000$, dois contos de réis, e renovou o contrato com Antônio Pompílio que há nove anos vinha sendo contratado. Assinou contrato também para a iluminação pública que era constituída de 60 lampiões a gás e postes em seus pontos convenientes. Há uma informação interessante sobre o uso dos lampiões. Os mesmos seriam acesos três dias depois da lua cheia até cinco dias depois da lua nova. Em noites de lua cheia não era preciso acender os lampiões pois a lua clareava mais que os mesmos. No contrato ainda dizia que os lampiões deveriam ser mantidos limpos, asseados e eficazes. Para que isso acontecesse, existia a figura do Acendedor de Lampiões. Toda tarde aquele profissional seguia pelas ruas, ‘a boquinha da noite”, levando uma escada e um galão de querosene, abastecendo os lampiões, limpando a fuligem e acendendo os mesmos. Na manhã seguinte seguia o mesmo trajeto apagando os que permaneciam acesos, menos nos dias mencionados acima ou quando estava chovendo.
               A 30 de julho o Decreto 6.059 criou uma Brigada de Cavalaria da Guarda Nacional na Comarca de Mossoró.
               Tomamos conhecimento também que em 10 de agosto, ainda do ano de 1905, João Dionísio Filgueira, Sebastião Fernandes, Antônio Filgueira Filho, Francisco Tavares Cavalcanti, respectivamente Juiz de Direito, Promotor Público, Presidência da Intendência e Vice-Presidente, além do corpo comercial, pessoas gradas do município, enviaram memorial ao Exmo. Sr. Presidente da República e Exmos. Ministros, reivindicando a construção da Estrada de Ferro de Mossoró. (A Estrada de Ferro de Mossoró teve o seu primeiro trecho inaugurado em 1915, ligando Porto Franco à Estação de Mossoró – hoje Estação das Artes).
               Em 08 de dezembro inaugurava-se a capela de Nossa Senhora da Conceição, construída no governo do Pe. Moisés Ferreira, sucessor do Pe. João Urbano na paróquia de Mossoró. A capela foi inaugurada nessa data para comemorar o cinquentenário do Dogma da Imaculada Conceição. Nesse mesmo dia, e com a denominação de “Bilhar Eureka”, inaugurou-se na cidade uma casa de diversão e jogos lícitos, de propriedade e sob a gerência do Sr. Raimundo Couto.
               Nesse ano de 1905 o município teve uma arrecadação de 24:100$000 e uma despesa de 23:100$000. Foi um ano seco, sem inverno. O ano entrou com o povo sentindo as consequências desastrosas da seca do ano anterior. Em 1905 apenas o mês de março foi chuvoso. Em seu livro “Secas contra a Seca” Felipe Guerra Registrou:
               “Finda-se o ano sem indício de inverno; entretanto, o gado conserva-se bem, há pastagem e aguadas. Os gêneros continuam abundantes e por preços baixos. Admira como um só mês de inverno tenha trazido tanta facilidade de vida e abundância no correr do ano”. Em Mossoró choveu 463 mm, naquele ano.
               São desses pedaços de informações que construímos a História de Mossoró.
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 Raimundo Fernandes - 15 de Maio de 2016 às 08:31

               Nasceu em 02 de junho de 1910, sendo filho de José Fernandes Chaves e Maria Adília Fernandes. Foi batizado no dia 15 do mesmo mês e ano, na cidade de Pau dos Ferros/RN, tendo como padrinhos a Virgem Santíssima Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Pau dos Ferros e seu primo legítimo Rev. Pe. Leão Fernandes.
               Em 1915, em meio a grande seca que assolava o Nordeste brasileiro, a família resolveu se mudar para o Amazonas, a convite do tio Anfrísio que por lá morava desde criança, prometendo que o Amazonas era uma terra de muita beleza e fartura. A viagem foi em um navio carregado de retirantes sertanejos para o Amazonas. Viajaram na 3ª classe, no porão do navio, quase que empilhados, pois o navio estava superlotado. No quarto dia de viagem chegaram ao Pará. De lá partiram para o alto Purus, em outro navio, até chegar ao seringal Itatinga, destino final.
               Raimundo Fernandes viveu no Amazonas dos cinco aos doze anos.
               Com a crise da queda do preço da borracha em 1920, o tio que os tinha acolhido, veio a falência e assim a família resolveu voltar ao torrão natal. Embarcaram no navio “Benjamin Constant” em 1922, chegando ao Sítio São José, localizado a 12 Km de Pau dos Ferros, entre as serras de São Miguel e Luís Gomes, no dia 20 de fevereiro de 1922.
               Em 1923 os pais mandaram Raimundo para estudar em Pau dos Ferros, em casa de Ezequiel Fernandes. Passou, no entanto, pouco tempo nessa casa, pois Ezequiel tinha sido convidado por Alfredo Fernandes para trabalhar em Mossoró. Raimundo passou a morar na casa de Osório Sena, cunhado de Ezequiel. Estudou no Grupo Escolar Joaquim Correia com o professor Joaquim Noronha.
               Em 1925 veio morar em Mossoró a convite de Alfredo Fernandes, passando a morar em sua casa, na Alberto Maranhão, vizinho a Igreja de São Vicente. Foi trabalhar nas empresas do mesmo. Fazia de tudo: abria os armazéns, fechava, varria, passava telegrama, tirava cópias, passava índice, quebrava e costurava sacos de ceras, lavava garrafas da fábrica de bebidas e espanava o escritório. Depois passou a permanecer mais tempo no escritório ajudando o novo Guarda livro a escriturar Borrador e passar o Caixa a limpo. Posteriormente passou a ocupar o cargo de Caixa. De 1927 a 1928 passou a fazer parte da contabilidade. No escritório trabalhavam Sinval, Elias Fernandes, o gerente Ezequiel Fernandes e Pedro Fernandes, como supervisor geral. Nessa época, os armazéns e escritório de Alfredo Fernandes localizavam-se na Av. Getúlio Vargas.
               Em 1930 o escritório e as instalações da Firma foram transferidos para a Av. Alberto Maranhão.
               Em 24 de junho de 1933 casou-se com Alzenita Fernandes Vital, com quem teve 10 filhos: 1- José Fernandes Vidal, 2 - Paulo Fernandes Vidal, 3 - Francisco de Assis Fernandes, 4 - João Batista Fernandes, 5 - Raimundo Fernandes Júnior, 6 – Lúcia Maria Fernandes Paes, 7 - Inês Maria Fernandes de Medeiros, 8 - Alzenita Goretti Fernandes Vieira, 9 - Jacinta Maria Fernandes da Silveira e 10 - Maria de Fátima Fernandes.
               Em 1948 faleceu no Rio de Janeiro o chefe Alfredo Fernandes. Seguiu-se a reestruturação da empresa. A partir daí passou a ser dirigida por uma diretoria composta de oito sócios: Antônio Cristalino, Ezequiel Fernandes, Pedro Fernandes Ribeiro, Aldo Fernandes, Francisco Sena, Diogo Cabral, Aldemir Fernandes e Raimundo. Tornando-se sócio, alterou o nome para Raimundo Nonato Alfredo Fernandes, mantendo assim o nome do fundador da empresa e a razão social “Alfredo Fernandes e Cia Ltda.
               Posteriormente a empresa se transformou em sociedade anônima, tendo Ezequiel Fernandes e Pedro Fernandes Ribeiro na presidência. Raimundo exercia um cargo da diretoria. Com a morte de Ezequiel e Pedro Fernandes, a empresa passou a ser presidida por Francisco Sena.
               Viveu uma vida dura, mas compensadora. Em 24 de junho de 1978 comemorou 45 anos de casados com oito filhos vivos e 32 netos. No começo de julho daquele ano sofreu um derrame perdendo a fala. Recuperou-se após quatro dias hospitalizados.
               No dia 30 de junho de 1979 Raimundo Fernandes deu o seu último expediente como funcionário da Cia Alfredo Fernandes Indústria e Comércio, onde trabalhou por 54 anos.
               Raimundo Fernandes faleceu no dia 04 de julho de 1982 na rua Tiradentes, em Mossoró, às 19 horas. Era domingo. Ao seu redor estavam os filhos Júnior, Inês, Goretti, Jacinta e Fátima. O velório durou a noite inteira na própria residência. No dia seguinte, após a missa de corpo presente, celebrada pelo bispo D. Gentil, o corpo de Raimundo foi levado ao Cemitério São Sebastião, cumprindo-se assim o que ele sempre afirmava: “Só saio da minha casa na Tiradentes para o Cemitério”.
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 As Mezinhas do nosso Sertão - 01 de Maio de 2016 às 09:50

               Mezinhas ou Meizinhas significam remédios caseiros ou manipulado em farmácias do interior, geralmente com o uso de ervas medicinais. Foram, por muitos e muitos anos, os únicos remédios acessíveis ao homem do campo, principalmente no alto Sertão potiguar.
               O início da ocupação do Sertão nordestino deu-se por volta de 1701, quando uma Carta-Régia determinou a retirado do rebanho das terras litorâneas. As 10 primeiras léguas (aproximadamente 60 Km), a partir da quebra do mar, estavam reservadas para a plantação de cana-de-açúcar. Restava, pois, aos criadores de gado o sertão.
               E foi no rastro do gado que o sertão foi colonizado. Os pecuaristas aproveitavam os leitos secos dos rios como estradas para conduzirem as suas boiadas e quando chegavam num lugar plano, fora da faixa proibida, construíam os seus currais, erguiam as suas cabanas, fixavam-se na terra.
               Para a construção das cabanas primitivas, o couro do boi era usado em grande escala. De couro eram as portas e janelas dos casebres, o lastro das camas rústicas, os baús de guardar objetos e roupas, os depósitos para a farinha, os arreios dos animais, o chapéu do vaqueiro, o gibão que os protegia, o peitoral que protegia igualmente os animais dos espinhos e pontas de galhos secos.
               E por muito tempo o Sertão viveu praticamente isolado do litoral, ou como podemos até dizer, da civilização, mantendo assim puro os seus costumes, suas rezas e suas tradições.
               Os dias do Sertão eram obscuros e longos, pois ainda se vivia ali, a era das curas pelas rezas, dos exorcismos e de tantas obras práticas do charlatanismo. Era muito comum as criaturas adoecerem e morrerem de males desconhecidos.
               Os remédios de botica, como eram chamadas as farmácias de antigamente, eram raros e caros, longe do poder aquisitivo do sertanejo. Sobrava, portanto, os remédios caseiros ou mezinhas. As folhas, as raízes, sementes e cascas desempenhavam largas influência na atividade da medicina sertaneja. A maior parte dos remédios era mesmo de origem vegetal.
               Na realidade o que se sabia é que havia um chá para cada doença, uma indicação, um recurso de cuja eficácia não cabia levantar suspeitas. Sua variedade era imensa e rica como a própria flora, donde vinha. O fedengoso, por exemplo, deixou fama, assim como a jurubeba branca. O cozimento de raiz de velame. A batata de purga. O cardo santo, para dor de garganta. A infusão de malva e agrião, para mal do peito. O chã de cravo de defunto, para doenças dos olhos. A cabacinha e a cabeça de negro, como depurativos. Cebola branca, serenada, para catarro. Chá de alho para gripe. Mel de juá, também indicado para doença do peito. Cumaru e sucupira para reumatismo. Mossoró para enfraquecimento. Babosa, (nove folhas lavadas em nove águas) feito mel com açúcar branco para escarro de sangue. Capeba, para doenças do fígado. Jindiroba, para reumatismo. Mão-fechada, para dor de mulher. Catucá, calmante, difumante, jatobá, para os rins e vias respiratórias. Milona, para o fígado. Alcançus para tosse. Mastruço, com leite, para a bronquite. Leite de pião, para mordida de cobra. Língua de vaca, para o baço. Melancia da praia, para dor de lado. Jucá, para espalhar o sangue. Maxixe do Pará, (a flor) para puxado. Casca de jabuticaba, para dor de barriga. Velame branco, para afinar o sangue. E mais rapa de juá, folha de abacate, capim santo, folas de laranjeira, como remédios de casa, para todas as indicações. Papa de araruta par acurar ulcerações gástrico-intestinais.
               Haviam ainda as garrafadas, preparadas por especialistas, e que segundo se dizia, arrancava o mal pela raiz.
               A relação de doenças era de meter medo: quebranto, olhado, espinheira caída, dor de veado, mal das juntas, puxado, nó na tripa, ar encausado, cupim, boqueira, fininha, impinge, interiça, cobreiro, sete couros, doença do peito, gafeira, chega-e-vira, dor na boca do estômago, tontura, brotoeja, pereba, pilora, calor de figo, farnezim, dor de mulher, curumba, fogo selvagem, bexiga lixa, caminheira, campainha caída, (também espinhela) mau olhado, dor de bentosidade, ventre caído, bucho quebrado, cabeça de prego, pé triado, mazela, braço desmentido, galco, quebradura, fuá, gota serena, Sapiranga, terçol, andaço, morrinha do corpo, macacoa, sarampo, esquinência, doença interiora, câimbra de sangue, esquentamento e erisipela. E ainda podia-se morrer de: bexiga, garrotilho, estopor, moléstia de ar, moléstia de vento, frouxo, cancro, antrás, gálico, urinas doces, sarampão, tosse, força de sangue, paridura, vício, inchaço, catarrão, maligna, espasmo, sezões, gota, inchaço, puxado, moléstia do peito, ferida na garganta, chagas, maleita, ferida na boca, lombriga, defluxo, pontada, fluxo de sangue, frouxo de sangue, doença gálica, pontada no ouvido, sezões malignas, tumor nas costas, humor recolhido, moléstia do vento, estrepada, caroço na barriga, velhice, inflamação no estômago, cobra, feridas recolhidas, tuberto, endosso, gota coral, caroço no rosto, sarampo, umas cacetadas, uma inflamação nos bofes, quebrandura descida, turo, mordidela de cascavel, uma inchação nos peitos, frialdade, hemorroides, tísica, parto, um tumor, de repente, uma queda, afogado, feridas gomosas, moléstia na barriga, retrocesso de sangue, lufada, uma ferida, dor nos ouvidos, hidrófico, feridas espasmódicas, inchação na cabeça, inflamação no fígado e estupor.
               Assim se curava ou morria o homem sertanejo até bem pouco tempo atrás. Mesmo nos dias atuais, encontramos nas feiras livres muitos dos elementos descritos aqui como medicinais: garrafadas, folhas, raízes e sementes. É a tradição sertaneja desafiando a modernidade.
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 Ezequiel Fernandes - 25 de Abril de 2016 às 22:14

               Nasceu a 9 de abril de 1892, na cidade de Pau dos Ferros/RN, sendo filho legítimo de Hipólito Cassiano de Souza e D. Francisca Fernandes de Souza. Fez os primeiros estudos em sua cidade natal, mas aprendeu apenas o necessário para realizar o seu grande sonho que era trabalhar no comércio, ao lado do seu pai e de um irmão, Francisco Fernandes de Souza, constituindo-se a firma Souza & Filhos.
               Em 1913, com apenas 21 anos de idade, Ezequiel resolveu casar-se. Escolheu para esposa uma prima, Ester Fernandes, de cujo enlace resultou em três filhos: Laete Fernandes, Luís Fernandes e Aldo Fernandes.
               Em 1923 recebeu um convite do seu primo Alfredo Fernandes, para trabalhar com ele em Mossoró, como sócio da firma Alfredo Fernandes & Cia. Aceitou de imediato o convite e assumiu, desde então, a gerência dos negócios. Era um homem trabalhador, já com experiência em comércio, gostava de madrugar e tinha, como se dizia na época, tino para o negócio. Com essas qualidades, deu aos negócios o desenvolvimento mais satisfatório, de modo que já em 1927, a firma Alfredo Fernandes & Cia. dominava toda a zona Oeste, atingindo até os estados da Paraíba e do Ceará. Nesse mesmo ano uma tragédia abalou a sua estrutura familiar, com a morte da sua esposa, Ester Fernandes, deixando-o profundamente abalado. E aquele ano de 1927 seria um ano terrível para Mossoró com a invasão da cidade pelo bando de cangaceiros chefiados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o que muito atrapalhou os negócios.
               Em 1928 Ezequiel Fernandes casou-se novamente com sua prima, D. Guiomar Fernandes de Oliveira, mas não tiveram filhos.
               Raimundo Fernandes, amigo e colaborador de Ezequiel na sua empresa, narrou um fato interessante que foi registrado por Walter Wanderley em seu livro “Gente da Gente – Memórias”, editado pela Pongetti. Disse que durante a grande seca de 1932, Ezequiel Fernandes criou na empresa que dirigia uma verba de socorro aos flagelados, distribuindo víveres, ajudando os necessitados. Como bom sertanejo e de coração aberto, sabia da necessidade daquela gente trabalhadora, obrigada a mendigar por uma situação alheia a sua vontade.
               Com a saúde debilitada, viu-se obrigado a residir em Fortaleza, onde tinha uma melhor assistência médica. De lá orientava os negócios da firma através do seu substituto Pedro Fernandes Ribeiro, outro esteio da empresa. Homem ativo, era, Ezequiel, de uma memória sem limite. Tinha tudo na cabeça, inclusive dados referentes aos balanços, posição dos correntistas, de modo que, quando se aproximava a época do balanço geral, ele dizia o resultado dos negócios em números bem aproximados. Quando acontecia haver qualquer discordância entre o que ele dizia e a contabilidade da firma, afirmava cheio de convicção: - “Procurem que deve haver algum engano”, o que normalmente acontecia.
               Vítima de uma moléstia terrível, que desafiou todos os recursos médicos da época, Ezequiel Fernandes faleceu em 25 de janeiro de 1966, deixando saudades entre familiares e amigos e grande exemplo de trabalho, perseverança e honestidade. Deixou um herdeiro dentro do seu negócio, na pessoa de seu filho, Aldo Fernandes de Sousa, que com os sócios passou a dirigir a empresa.
               A Cidade de Pau dos Ferros, sua cidade natal, o homenageou emprestando o seu nome a uma Praça local. Os seus sucessores e diretores da Cia. Alfredo Fernandes Indústria e Comércio mandou confeccionar, no Rio de Janeiro, um busto de seu chefe desaparecido, que foi colocado na referida Praça, na sua terra, para orgulho dos seus conterrâneos. Mossoró também lhe rendeu homenagem emprestando o seu nome a uma rua localizada no bairro Abolição.
               Foi, Ezequiel Fernandes, um homem querido e admirado, tanto no lar como na sociedade, nas terras onde viveu, trabalhou e deixou grande exemplo. Mossoró guarda a sua memória.
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 O Canjerê de Zezinho 12 Anos - 18 de Abril de 2016 às 23:00

               Nas pesquisas que realizamos, vamos encontrando histórias ou estórias curiosas das mais diversas espécies. Algumas bem engraçadas, outras tristes, outras apenas diferentes. Algumas eu faço questão de reproduzir, por retratar uma época, por nos trazer informações de como era Mossoró no passado.
               Uma dessas histórias fala do Canjerê de Nezinho 12 Anos. Canjerê, segundo o Dicionário Aurélio Século XXI, significa “reunião de pessoas para a prática de feitiçaria; feitiço, mandinga; cerimônias religiosas africanas; dança profana dos negros. Em algumas regiões nordestinas denominava até casas de prostituição. Mas no caso de Mossoró, o Canjerê de Nezinho 12 Anos era apenas uma casa de bilhar, onde os homens se encontravam para jogar ou apenas conversar. Era, por assim dizer, um grande centro de aglutinações de amizades, onde políticos e grandes comerciantes se distraiam.
               O ano aqui retratado é o de 1922. Mossoró, por essa época, era então uma metrópole dos sertões. Seu comércio vivia ainda a importância daqueles grandes dias do seu poderio econômico que projetava o nome da cidade pelas fronteiras dos Estados e pelas praças comerciais do Nordeste.
               O Canjerê ficava no antigo beco da Farmácia de “Seu Rosado”, olhando, ao longe, para a curva do rio onde fica o Poço das Pedras e os tamarineiros frondosos. E apesar de ser bem frequentado, as condições das instalações não eram lá essas coisas. Diga-se de passagem, que o Canjerê era só um bilhar, mas que bilhar era aquele! Seu conjunto não passava de um quadrilátero de madeira tosca, que nem ao menos era envernizada, coberta de um pano de casimira escura. A borracha das tabelas de tão envelhecidas, já não possuíam mais qualquer elasticidade. Os tacos não passavam também de grosseiros varapaus, parecendo mais com cabos de vassouras improvisados em instrumentos do nobre jogo das elites. As bolas, não eram esféricas, pois tinham achatamentos que era verdadeiros pontos de apoio. E para completar o quadro, não havia giz, pois o que fingia ser isso, eram umas grandes pedras de cal trazidas do “Sitio Saco”, onde o patriarca Luís Firmino tinha umas caieiras que abasteciam as construções da cidade.
               E o curioso é relacionar pelos nomes ou pelos apelidos as figuras que aperuavam as partidas e faziam círculo, por perto das tabelas. Apontavam o jogo, davam palpites e insinuavam o “efeito” que o parceiro devia dar para a bola pegar de fino e ir até a carambola, ou indicação se era o caso de um giro, de um corte ou de uma bola “seguir”, onde era preciso mostrar a capacidade de segurança.
               Em redor, pelos bancos, encostados nas paredes ou nas portas, as fisionomias eram sempre as mesmas, enfeitiçadas naquele antro. Além do dono, desde cedo, lá se encontravam José de Casimiro, que era encadernador de livros; Chico do Canto; Zé Cruz, que vendia “pega-pinto” num ponto da Travessa Monte Primo; Elísio Felipe, cortador de carne no Mercado Público; José Queiroz, ou como o chamavam, José Prego; Luquinha de Manuel Pedro; Major Higino, que fora empregado no Grande Hotel e de lá saíra, por ter descoberto que um artista, “Segatos”, que se exibia no palco do Cinema, empregava uma bola de madeira para fingir de ferro e muitos outros. De tantos que poderiam ser mencionados, podemos lembrar o de Xavier Fernandes, que foi Deputado Federal pelo Rio Grande do Norte e que foi, por largos dias o melhor e mais assíduo dos companheiros das suarentas maratonas do velho bilhar do Beco da Botica. Sobre esse personagem há ainda um fato curioso: ou porque jogasse melhor, ou porque tivesse mais sorte, Xavier Fernandes vencia quase todas as partidas, mas o diabo é que ganhando ou perdendo, ele quase sempre era quem pagava o tempo...
               São histórias saborosas de se conhecer. A denominação dos logradouros, hoje já tão diferentes que nos custa a identificar onde ficavam. A cidade não preservou os seus nomes originais; as pessoas comuns com suas profissões simples, mas necessárias para a época; as casas de negócios e seus proprietários. Todas essas histórias são pequenos retalhos, que quando juntos formam uma grande colcha, que é a verdadeira História de Mossoró.
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 Fundação Vingt-un Rosado - 11 de Abril de 2016 às 23:27

               Fundada em 06 de abril de 1995, a exatos 21 anos, A Fundação Vingt-un Rosado nasceu com objetivos claros que seriam de manter a Coleção Mossoroense, estabelecendo as diretrizes de sua produção editorial, promover atividades culturais, técnico-científicas, artísticas e afins, realizar cursos de capacitação, organizar congressos, simpósios e outros eventos que visem difundir a cultura, promover intercâmbio com organizações do país ou do exterior, visando a realização de seus objetivos, promover a defesa da memória cultural e do patrimônio histórico e natural do Rio Grande do Norte, preservar o acervo bibliográfico de Vingt-un Rosado aberto a consulta pública e difundir o pensamento do seu patrono, calcado na democracia editorial, no incentivo aos novos escritores e na cultura como instrumento de promoção da justiça social.
               Pelos seus Estatutos, a Fundação Vingt-un Rosado é uma entidade de personalidade jurídica de natureza privada, sem fins lucrativos, com atividades prevalentemente culturais.
               Manter a Coleção Mossoroense foi o objetivo principal da criação da Fundação Vingt-un Rosado. Essa Coleção que foi instituída em 30 de setembro de 1949, teve inicialmente como mantenedora principal a Prefeitura Municipal de Mossoró, através da sua Fundação Municipal de Cultura. Em 27 de setembro de 1976 foi criada a Fundação Guimarães Duque – FGD, que era uma instituição voltada para a pesquisa e a cultura, e passou a ser, a partir daí a sua principal mantenedora. Essa parceria se estendeu por 21 anos, até que em 1994, por problemas internos da ESAM – Escola Superior de Agricultura de Mossoró, a Fundação Guimarães Duque foi desativada e com isso a Coleção Mossoroense perdeu a parceria. Precisava urgentemente de uma solução para que a mesma não deixasse de existir.
               E foi assim que depois de várias reuniões surgiu, por inspiração da Assistente Social D. América Rosado, esposa de Vingt-un, a Fundação que tinha como patrono o criador da Coleção Mossoroense. Mas para que o sonho se tornasse realidade foi preciso o empenho de outros sonhadores, que por questão de justiça passo a nominá-los: João Batista Cascudo Rodrigues, Marcos Antônio Filgueira, Carlos Frederico Rosado do Amaral, América Fernandes Rosado Maia, Paulo de Medeiros Gastão, Cid Augusto da Escóssia Rosado, Raimundo Soares de Brito, Júlio César Rosado, Elder Heronildes da Silva, Wilson Bezerra de Moura, Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, Nelson Lucas Pires, Sebastião Vasconcelos dos Santos e Jerônimo Dix-sept Rosado Sobrinho.
               O professor Vingt-un Rosado fez doação da sua biblioteca particular a Fundação, para que essa já nascesse com o grande e importante acervo. Esse acervo foi catalogado através de um convênio com a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Os trabalhos ocorreram dentro de uma ação de Extensão denominada “Biblioteca do Dr. Vingt-un Rosado: o Bastião da Cultura Mossoroense”, realizada por uma equipe de quatro professores, um técnico de nível superior e seis alunos do curso de História do Campus Central da UERN em Mossoró, durante o período de junho de 2008 a janeiro de 2009.
               Vingt-un cedeu também o espaço físico para abrigar a Fundação em sua própria casa, na Avenida Jorge Coelho de Andrade, nº 25, Bairro Costa e Silva em Mossoró/RN.
               Criada a Fundação, assumiu a diretoria executiva o médico Jerônimo Dix-sept Rosado Maia Sobrinho, que há 21 anos suporta o peso de gerenciar uma fundação, que tem sobrevivido à custa de pequenas doações e alguns raros convênios, dos quais destacamos a Petrobras, que patrocinou quatro edições do Projeto Rota Batida e do Banco do Nordeste que patrocinou o portal da Fundação, para divulgação de livros digitalizados, mas que teve curta duração.
               Com a morte de Vingt-un Rosado em 2005, as coisas ficaram mais difíceis para a fundação. Por questão de herança, a casa que abrigou a Fundação precisou ser desocupada e o imenso acervo que forma a Coleção Mossoroense ficou sem destino. Graças à boa vontade do Dr. Benedito de Vasconcelos Mendes o mesmo foi transferido provisoriamente para o Museu do Sertão, em Alagoinhas, periferia de Mossoró, e graças a um acordo firmado com a Prefeitura Municipal de Mossoró transferido posteriormente para o Museu Municipal Lauro da Escóssia, que passou a abrigar a sede da Fundação Vingt-un Rosado, a biblioteca particular do seu patrono, o acervo da Coleção Mossoroense e brevemente será montado um Memorial, onde será exposto objetos pessoais de Vingt-un, comendas recebidas e outros documentos.
               Apesar das vicissitudes por que tem passado a Fundação Vingt-un Rosado, a mesma continua viva, buscando patrocínios e outros tipos de colaboração para poder continuar com esse imenso trabalho em prol da cultura potiguar.
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  

 Subsídios para a História da Imprensa de Mossoró - Final - 04 de Abril de 2016 às 23:10

               Esta é a 5ª e última parte da nossa viagem através da História da Imprensa Mossoroense, viagem essa que começou em 1872, com o surgimento do jornal “O Mossoroense” vindo até os dias atuais. Claro que muitas publicações deixaram de constar neste trabalho, por desconhecermos de suas existências.
               Relacionamos, nos artigos anteriores, informações sobre os seguintes veículos de comunicação: O Mossoroense, que começou a circular em 1872; O Recreio Familiar, de 1876; O Eco, de 1901; O Mossoroense, em sua 2ª fase e A Ideia, de 1902; O Trinta de Setembro e O Passatempo, de 1903; O Mensageiro, A Revista União e o Atheneida, de 1904; O Santeiro, de 1905; A Alvorada, de 1907; O Comércio de Mossoró, de 1908; A Escola, de 1915; A Palavra, Correio do Povo e O Trabalho, de 1926; O 14 de Setembro, de 1928; O Correio Festivo, de 1932; A Escola e O Caixeiral, de 1933; O Boletim da ABC e A Voz do Estudante, de 1935; O Comerciário, de 1937; A Coméia, de 1940; A revista Consagrando uma Data, de 1941; O Boletim do Congresso Eucarístico Diocesano de Mossoró, a revista do 1º Congresso Eucarístico de Mossoró e a revista O Desfile, de 1946; Jornal do Oeste e a Revista Poliantéia, de 1948 ; O Movimento, de 1949; Revista A Presença de Dix-sept Rosado e Meeting, de 1953; O Espião, de 1954; Sempre Alerta, de 1965 e Expressão, de 1969.
               Temos ainda a acrescentar a esta relação o jornal O Festeiro. O exemplar que tenho em meus arquivos é o nº 3, ano I, de 1928. Tinha como responsável José Martins de Vasconcelos, como redatora-diretora Maria Sylvia e como redatora Isabel Bessa. Era uma seminário domingueiro (na época dessa edição estava circulando diariamente), dizia-se de literatura ingênua, alegre e moral. Tinha colaboradores diversos.
               Jornal Gazeta do Oeste. Entrou em circulação no dia 17 de setembro de 1977, tendo como diretor Canindé Queiroz.
               O jornal era de propriedade da C.Q. Gráfica Editora Ltda., com sede na Rua Cunha da Mota, nº 100, Centro.
               A princípio teve periodicidade semanal, passando depois a diário. Circulou pela última vez em 31 de dezembro de 2015.
               Jornal De Fato. Circulou pela primeira vez em 28 de agosto de 2000. É o único jornal impresso ainda em circulação em Mossoró. Tem como diretor o jornalista José Cesar dos Santos e Diretor de Redação William Robson. É publicado pela Santos Editora de Jornais Ltda., que fica na Avenida Rio Branco, 2203, Mossoró.
               Jornal Clandestino. Informativo cultural que circulou pela primeira vez em novembro de 2002, e tinha como editores: Mário Gerson e Grupo Apogeu. Revisão de Graciele de Lima e Kalliane S. Amorim. Diagramação, Renato Mota Arrais. Ilustrações, Wend M. (Didinha), Renato Mota Arrais e Mário Gerson. Tinha vários colaboradores. Circulou até 2012.
               Jornal Poranduba. Jornal literário que tinha como editor o jornalista Rubens Coelho e vários colaboradores. Começou a circular em 2007. Dizia em seu cabeçalho que Poranduba, em Tupi, significa: contos, histórias, notícias, novidades, perguntas, relações.
               Jornal Plural. Foi mais uma experiência literária a circular em Mossoró. O primeiro número circulou em 06 de maio de 2006, tendo como editor, João Maria Souza da Silva e as seguintes editorias: Arte e Educação, Symara Tâmara; Literatura e Cultura, R. Leontino Filho; História, Geraldo Maia do Nascimento; Gestão, André Henrique de Souza Neto.
               Com esses, concluímos nossas pesquisas sobre a imprensa mossoroense. Como já foi dito, a lista não está completa. Muitos outros devem ter circulado em nossa cidade sem que esse pesquisador tenha tomado conhecimento. Solicitamos a colaboração dos leitores para que se tiverem conhecimento de outros jornais que não foram listados acima, que no informe. Prometemos divulgar as colaborações recebidas. .
               

Seção: Artigos | 0 Comentário(s) »  


Busca:

ADQUIRA OS NOVOS LIVROS

LIGUE JÁ E PEÇA O SEU!

(84) 8829-5475
gemaia1@gmail.com


 
© Copyright Geraldo Maia do Nascimento. Todos os direitos reservados.

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.