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 82 anos da Diocese de Mossoró - 20 de Novembro de 2016 às 10:49

               No dia 18 de novembro de 1934, num dia de domingo, dava-se a inauguração da Diocese de Mossoró, conforme determinação do Sr. Bispo de Natal, D. Marcolino Dantas. O padre Luiz Ferreira Cunha da Mota registrou no 4º Livro de Tombo da Matriz: “Tendo recebido procuração de S. Excia. Revma. para em seu nome oficiar na cerimônia conforme as prescrições canônicas, o fiz com toda a solenidade na Catedral de Santa Luzia em sessão pública, com o comparecimento de todas as associações católicas, clero, autoridades e grande público. Nesta ocasião, tomei da palavra para explicar o grande acontecimento e declarar oficialmente inaugurada a Diocese de Mossoró. O Cônego Amâncio Ramalho, como secretário do ato, procedeu à leitura em vernáculo da Bula de criação da Diocese, do S. Padre Pio XI, datada de Roma, no dia 28 de julho do corrente ano como também da Provisão da Nunciatura Apostólica do Rio de Janeiro, nomeando o Sr. Bispo de Natal, D. Marcolino Dantas, Administrador Apostólico da nova Diocese até a nomeação do seu primeiro Bispo. De tudo fez-se ata especial em livro próprio para os atos da Diocese e foi assinada por todos os presentes. Em seguida à solene sessão, oficiou-se um “Te Deum” em ação de graças. A Catedral estava repleta de todo povo católico de Mossoró, representado por todos os seus elementos sociais. Era notada a satisfação geral com a elevação da sua Igreja à dignidade de Sé-Catedral e nossa cidade distinguida com tão grande honra pela Igreja de N. S. Jesus Cristo. Renovaram-se os cumprimentos ao Sr. Bispo de Natal, nosso Administrador Apostólico, ao Vigário da Catedral de Santa Luzia, ao Clero.”
               Assim foi a instalação da Diocese de Mossoró que ora completa oitenta e dois anos de existência, com a leitura da “Bula de criação da Diocese de Mossoró”, pelo Padre Mota.
               No dia 20 de dezembro de 1935 chegava a Mossoró a notícia da nomeação do seu primeiro Bispo, que recaiu na pessoa do Monsenhor Jaime de Barros Câmara, que era Reitor do seminário menor de Azambuja, em Brusque, no Estado de Santa Catarina. Na Catedral foi dada oficialmente a notícia ao povo pelo vigário Pe. Luís da Mota. Foi também feita à comunicação a todos os vigários da Diocese.
               No dia 2 de fevereiro de 1936 foi sagrado em Florianópolis, Estado de Santa Catarina, como estava determinado, o Esmo. Sr. D. Jaime Câmara, 1º Bispo de Mossoró. A cerimônia foi presidida pelo Exmo. Sr. D. Joaquim Domingos de Oliveira, tendo como assistente os Exmos. Srs. D. Daniel Hostin, Bispo de Lajes, e D. Pio de Freitas, Bispo de Joinvile.
               Avisado o povo mossoroense, antecipadamente, houve muita assistência dos fiéis às missas em que se fizeram comunhões na intenção de S. Excia. Revma. Foram passados muitos telegramas de felicitações a D. Jaime.
               Dom Jaime Câmara chegou a Mossoró no dia 26 de abril de 1936, às 5 horas da tarde, sendo recebido na Estação da Estrada de Ferro pelo Clero, Associações, Autoridades e grande massa de populares. Paramentando-se ali e depois de ouvir a saudação que lhe dirigiu o Dr. Epitácio Fernandes, Juiz preparador, em nome do Governo do Município e do povo católico da Diocese, seguiu para a Catedral, onde tomou posse solene do Bispado, com todas as prescrições da liturgia da Igreja.
               Como 1º Bispo, D. Jaime fez um grande trabalho de cunho apostólico e social. Para ilustrar as suas ações, podemos citar as visitas pessoais feitas as salina, então focos de insurreição, a organização dos operários em Círculos Católicos, as pregações nas próprias fábricas, onde se confessavam anualmente os operários para as grandes solenidades cívico-religiosas de 1º de maio, a construção da Vila Operária, construção do Abrigo “Amantino Câmara”, para a velhice desamparada, instituição até hoje em funcionamento, a doação de uma casa para instalação do Lactário mantido pela Prefeitura e muito mais.
               Assim começou a Diocese de Mossoró. Fazemos o registro para a perpétua memória do acontecido.
               

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 Como se locomoviam os mossoroenses no início do Século XX - 16 de Outubro de 2016 às 09:48

               De volta ao passado da bucólica Mossoró do início do Século XX, nos deliciamos com as narrativas dos seus habitantes sobre os meios de transporte usados na cidade. Em velhos livros amarelados pelo tempo lemos alguns relatos onde tomamos conhecimento que a condução mais importante em Mossoró era a diligência de “Seu Pompílio”, um carro grande de quatro rodas, puxado por uma parelha de burros. Os passageiros compravam as passagens para andar na cidade ou para irem ao Porto de Santo Antônio, de onde chegavam pessoas de barco pelo Rio Mossoró, vindos de Areia Branca e vice-versa. Outra famosa e muito conhecida era a diligência do Dr. Almeida Castro, médico do lugar.
               Cavalos e burros eram os transportes principais. Todos que chegavam de fora vinham nesses animais e as casas tinham no quintal um abrigo para eles.
               O primeiro automóvel a chegar em Mossoró foi em 1912, da firma Tertuliano Fernandes & Cia. Teve pouca duração. Teve também o auto adquirido por Delfino Freire, que era um rico comerciante local, dono de várias firmas comerciais. Era um carro grande, com capota de lona, com lugar para duas pessoas na frente e cinco atrás. A buzina ficava por fora, ao lado do motorista. Parecia uma corneta e era acionada apertando-se uma pera de borracha. Não havia bateria nos carros, por isso era usada uma manivela para fazer o motor funcionar. Com o carro, Delfino Freire mandou trazer um chofer, que por ser francês, não tomava água, somente vinho, que era comprado em Aracati, porto do Ceará.
               Em 1920 Rodolfo Fernandes comprou um Ford. Fez a primeira viagem a Vila de Apodi, causando sensação. Durante o trajeto, as pessoas fugiam apavoradas das estradas. Quando o automóvel chegou na cidade, o povo que estava na rua correu para dentro de suas casas, fechando as portas, achando tratar-se do diabo, pois além do barulho que fazia, dava estrondos, fumaçava e andava sem ser puxado por animais. Foi preciso a interferência do intendente para acalmar o pessoal, dizer que aquelas pessoas eram amigas e convidar a todos para conhecer o automóvel.
               Encontrei o relato de um cidadão que em 1924 fez uma viagem de Mossoró para Assú, 12 léguas de distância, como se dizia naquela época. Segundo ele, o carro tinha rodas de motocicleta e pneus finos. Conduziam, no mínimo, seis sobressalentes, além de algumas câmaras de ar. Um jovem preto e forte ia ao lado do chofer como ajudante, para girar a manivela e trocar os pneus que, a todo momento, estouravam. Já andava com um vidro de cola para os consertos das câmaras. Na lateral da boleia eram amarradas “borrachas de água”, para matar a sede dos passageiros durante a longa viagem. A capota era de lona, aberta nas laterais. As estradas eram usadas para tropas de burros ou carros de boi, o que as tornavam péssimas para automóvel. Saíram de Mossoró de manhã cedinho e chegaram a Assú por volta do meio-dia. Voltaram dois dias depois, nas mesmas condições.
               Eram assim os primeiros transportes que circularam em Mossoró no início do Século XX.
               
               
               

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 As enchentes do Rio Mossoró - 09 de Outubro de 2016 às 18:14

               Quem olha hoje para o Rio Mossoró, de águas mortas e cobertas de vegetação, preso em suas barragens, cortado por pontes e dividido em três braços, dificilmente pode imaginar o que foi esse rio no passado, correndo livre em seu leito, calmo e navegável durante o nas secas, mas extremamente violento nas enchentes, arrancando árvores e arrastando-as perigosamente ao longo do seu curso, ilhando comunidades, causando transtorno a população, fenômeno esse observado pelos índios que habitaram primitivamente a sua ribeira, e que por isso o chamaram de Mossoró, que em Tupi significa “rio furioso, que rompe e rasga o terreno”.
               Tive acesso a um depoimento do Dr. Raul Fernandes, médico, filho do ex-prefeito Rodolfo Fernandes, que retrata bem essa época.
               A família do Dr. Raul morava, estava no Sítio Boa Vista, vizinho ao dos Pintos, a meia légua de Mossoró. A casa ficava no centro da propriedade, a um quilômetro do rio, situada numa pequena elevação e cercada de carnaubais.
               Certa manhã de 1917, despertaram assustados. Estavam ilhados. A água subira no piso do alpendre, em frente à casa e espalhava-se numa grande extensão para todos os lados. Quase metade da cidade amanhecera inundada. A correnteza passava vários palmos por cima da barragem, a grande velocidade, produzindo estrondos. Choupanas cobertas de palha de carnaúba eram arrastadas pela enxurrada, assim também como animais, aves domésticas, árvores, malas, baús e objetos caseiros boiavam rio abaixo.
               Notícias alarmantes chegavam do interior, relatando que as fortes chuvas que tinham caído na altura da nascente do rio, tinham deixados habitantes desabrigados, que vários barreiros tinham transbordado e que açudes e represas estavam arrombando. A consequência é que as águas corriam formando ondas e se espalhavam nas partes planas do solo.
               Rodolfo Fernandes tinha dormido na cidade e pela manhã, quando viu o estrago que o rio estava fazendo, mandou uma lancha a motor buscar a família que tinha ficado no sítio, em número de seis pessoas: o Dr. Raul, que na época estava com nove anos de idade, sua irmã Isaura Fernandes, sua mãe, uma tia e um tio, além da empregada. Segundo as lembranças do Dr. Raul o batel, que era equipado com um pequeno motor, chegou cedo ao sítio, pilotada por Seu Aristides e um ajudante, portando vara e dois remos pequenos. Lembrou que a todo instante se ouvia o soar agudo dos búzios, num triste lamento, pedindo socorro. Com toda a família a bordo, navegaram entre o carnaubal, na direção da margem, quando uma forte correnteza arrastou a lancha de encontro a uma carnaubeira, enchendo-a de água e logo depois esbarrou nos galhos de uma árvore que vinha sendo arrastada pela enchente. Com o impacto o jovem Raul caiu na água, sendo resgatado por Seu Aristides, que conseguiu nadar com o garoto até uma outra carnaubeira ficando ali agarrado, enquanto o restante da família, na mesma situação, agarrava-se as carnaubeiras. O ajudante saltou da embarcação levando a ponta da grande corda presa à proa. Nadou um pouco e andou em direção a terra. Amarrou-a numa árvore e passou a puxar o barco auxiliado pelos moradores da região. Assim o batel alcançou a margem e começaram, então, a esvaziá-lo. Em pouco tempo voltava a flutuar. Foi puxado mais para cima, contra a correnteza e a corda amarrada em terra. O rapaz com a vara empurrava a lancha para fora, seguindo o curso das águas até alcançar as pessoas. Assim foram resgatadas todas. Mas ainda estavam longe da cidade. Foi preciso mandar um portador, que saiu a pé margeando o rio até Mossoró, com um recado para Rodolfo Fernandes, que enviou um barco maior, com motor mais potente e foi nesse barco que conseguiram chegar a cidade, depois de muito sacrifício e risco de morte. No outro dia as águas começaram a baixar com rapidez.
               Essa narrativa ilustra bem a força do rio quando cortava livre a cidade. Hoje praticamente não se vê mais as suas águas, apenas um verde campo florido, de uma vegetação que cobre o seu leito, sufocando-o, tornando-o sem vida e mau cheiroso. Sua força permanece apenas no nome “Mossoró – rio furioso, que rompe e rasga o terreno”. E nada mais.
               

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 Sertão, velho sertão nordestino - 28 de Agosto de 2016 às 08:53

               Antes da chegada do colonizador as terras já eram ocupadas pelas tribos indígenas Janduís e Paiacus. Mas na passagem devastadora dos povoadores dos Sertões, os primitivos habitantes foram sendo escravizados, massacrados e expulsos de suas terras e nessas, os povoadores fincaram os mourões das porteiras dos currais de gado. Já não havia mais lugar para os nativos. Assim começou o desbravamento do Sertão potiguar.
               Sertão, velho Sertão nordestino. Sertão de lutas, de agruras, Sertão sofredor. Se o ano for de seca, a sede, a fome e a desgraça amedrontam o sertanejo; se for ano de chuva, a fartura, a beleza do campo e o cantar da passarada alegram aquele torrão. Terras que no dizer de Euclides da Cunha são “barbaramente estéreis, maravilhosamente exuberantes”.
               O vocábulo sertão, nos primórdios do povoamento brasileiro, designava todas aquelas regiões ainda não povoadas ou ainda mal ocupadas do país. Como a natureza hostil do interior do Nordeste dificultou a fixação humana da região, gerando uma ocupação rarefeita de lento e penoso adensamento, moldando o isolamento das comunidades, foi consagrado o nome sertão para todo aquele imenso território coberto pelas caatingas.
               Podemos dizer que foi o gado o desbravador do Sertão. Os imensos canaviais da costa das capitanias do Nordeste eram as bases de uma economia mercantilista que fez com que o litoral bastasse aos portugueses. Toda a terra fértil, próxima ao litoral, estava destinada, por determinação da Coroa, ao cultivo exclusivo da cana-de-açúcar. Não sobrava, dessa forma, espaço para o desenvolvimento de atividades acessórias como a pecuária, que fornecia carne e força motriz aos engenhos. Daí surgiu, no litoral, a necessidade de separação entre a monocultura da cana e a pecuária. Uma Carta-Régia de 1701 determinava que as dez primeiras léguas, a partir da batida do mar (aproximadamente 60 Km), eram destinadas à cana-de-açúcar. Para o gado, sobrava o Sertão. Foi no interior das capitanias, como a do Rio Grande do Norte, que o criatório mais se desenvolveu, mesmo com a resistência indígena contra os primeiros assentamentos de fazendas.
               Oswaldo Lamartine dizia que “a semente do gado trazida do reino para cá foi inicialmente para suprir a necessidade de força do cangote do boi no giro tardo das almanjarras dos engenhos, ou no gemer lamuriento das cantadeiras dos carros de boi, carregando cana e lenha, de vez que os trapiches requeriam sessenta bois, dos quais moíam de doze em doze horas revezados. Depois, à medida que crescia a parição foi, então, havendo maior aproveitamento do leite, das carnes e dos couros”.
               E foi assim que os caçadores se internaram no Sertão, rompendo pelos caminhos das águas, ou da areia, já que na estiagem os rios secavam. A marcha era lenta e penosa, castigada pelo sol abrasador, pela sede, rasgando as carnes nos espinhos da sarjadeira, da jurema, do sabiá, da macambira, da quixadeira, do juazeiro, do cardeiro ou do xique-xique, muitos perdendo a vida pelas flechas do caboclo brabo ou pela picada venenosa da jararaca ou cascavel.
               Quando encontravam terras propícias, principalmente próximas a algum rio, eram fincados os currais. As cabanas eram construídas de madeira e palha, tendo o couro como elemento fundamental. Era a época do couro, como nos ensinou Capistrano de Abreu, pois as portas das cabanas eram de couro, o rude leito aplicado ao chão duro, e, mais tarde a cama, eram de couro, todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforje para levar a comida, como também a mala em que se guardavam as roupas, a mochila para milhar o cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, as bainhas das facas, as bruacas, os surrões, a roupa de entrar no mato, os banguês para costumes ou para apurar sal.
               Com a implantação dos currais, consolidavam-se os aglomerados. Como religiosos fervorosos que eram, logo construíam uma capela e ao seu redor surgiam as casas, sendo a do fazendeiro a mais vistosa. Nessa, instalavam-se e moravam alguns dependentes da família: os filhos, os parentes e os aderentes. O fazendeiro era uma espécie de figura de patriarca, senhor absoluto de sua vontade e, por isso, respeitado por todos, no meio daqueles sertões obscuros, por vezes violentos. Também eram padrinhos de toda meninada.
               Desse modo, a fazenda era um centro de aglutinação de pessoas que se juntavam aos que viviam no mesmo regime de família, constituída de filhos e parentes, agregados, vaqueiros, homens de confiança para qualquer serviço. O apego ao clã constituía uma espécie de credo de união do grupo tão diverso. “Tocou em um, tocou em todos”, era essa a lei do Sertão.
               No caso do Sertão potiguar, algumas fazendas transformaram-se em povoados, em vilas, e deram origem, dentre outras, às cidades de Açu, Apodi, Caicó, Portalegre, Pau dos Ferros, Currais Novos, Mossoró e Acari.
               Mas os primitivos donos das terras não aceitaram facilmente a presença do colonizador. Estes agiam sempre com violência sobre a população indígena. Os índios não aceitavam entregar suas terras e também não aceitavam ser escravizados. Quando os portugueses não conseguiam aprisioná-los, matavam-nos. Revoltados, e já quase extintos, os índios da Capitania do Rio Grande do Norte uniram-se aos das Capitanias do Ceará, de Pernambuco e da Paraíba e decidiram atacar as fazendas e os povoados do interior, incendiando casas e plantações, matando o gado, os colonos e os vaqueiros. Essa revolta foi chamada de “Guerra dos Bárbaros” ou “Confederação dos Cariris”. Foram 13 anos de luta, estendendo-se de 1687 até 1700.
               Com a apaziguamento do indígena, esse tornou-se o melhor auxiliar dos fazendeiros. No Sertão, predomina o mameluco ou caboclo, mestiço de branco e índio. É o nosso vaqueiro. Vaqueiro das caatingas áridas, das criações sem cercas, separadas por ribeiros.
               No século XVIII, a economia baseava-se, essencialmente, em duas fontes: na agricultura e na indústria pastoril. Mas, havia sempre o fantasma da seca que tudo extinguia, obrigando os sertanejos a abandonarem os seus “torrões”. Essas secas, ao contrário do que se possa imaginar, “vêm de datas antiguíssimas na nossa cronologia histórica”. A primeira que se tem notícia data de 1600, em pleno século XVII. A seca atinge, e muito, a pecuária, desorganizando a criação de gado. No século XVII, foram registradas cerca de quatro secas (1600, 1614, 1691 e 1692) e, no período seguinte, o fenômeno repetiu-se em número bem maior, num total de vinte e uma (1710, 1711, 1723, 1724, 1726, 1727), dentre outras.
               Diante da miséria, os sertanejos humildes valiam-se da sua fé e logo surgiam os beatos, apresentando-se enviados de Deus para redimir os pecados daquela gente sofrida. Prometiam, através da oração e do sacrifício, atingir a felicidade eterna. Alguns desses beatos conseguiam formar comunidades como foi o caso de Antônio Conselheiro que criou a comunidade de Canudos, no sertão da Bahia, e do beato José Lourenço que criou a comunidade do Caldeirão, no e cearense.
               Em todos os casos, essas comunidades foram perseguidas e destruídas de maneira cruel pelos coronéis e pelos poderosos da região. O sertão do Rio Grande do Norte também abrigou a uma dessas comunidades, cujos habitantes eram conhecidos como os “Fanáticos da Serra de João do Vale”. Esse movimento teve início com o beato Joaquim Ramalho que, segundo Câmara Cascudo, era gordo, lento, apático, sujeito às cismas, meditações longas, o olhar parado, acompanhando um pensamento misterioso.
               A tendência mística, afirma-se, com poucos anos, nas orações sem fim, nos passos ritmados, braços para o firmamento, rezando missas, impondo penitências. O beato Joaquim Ramalho cresceu e, adulto, casou-se, passando a morar na vila do Triunfo. Continuou, entretanto, com o mesmo comportamento estranho, rezando sempre.
               No final de 1894, morreu o vigário de Triunfo, padre Manuel Bezerra Cavalcante, com oitenta anos, sendo chorado por toda a comunidade. No ano de 1898, Joaquim Ramalho teve um ataque, assim descrito por Câmara Cascudo: “bruscamente parou, nauseante, gorgolhando vômitos e caiu de bruços, pesadamente”. Durante a crise começou a cantar. Quando recobrou os sentidos, não se lembrava de nada. O fenômeno repetiu-se nas tardes seguintes. A notícia se espalhou rapidamente, crescendo o número de curiosos, todos querendo assistir a cena. Estava nascendo mais um líder místico no sertão nordestino.
               
               Continua
               

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 Descrição bucólica de uma viagem a Tibau - 17 de Julho de 2016 às 18:27

               Viajar para Tibau hoje, pela RN-013, leva apenas 32 minutos de carro, se houver pouco trânsito. Como dizemos por aqui, “é um pulo”. Mas antes era diferente. Em 1920, por exemplo, para se fazer essa mesma viagem, levava-se o dia todo viajando em carro-de-boi, percorrendo as oito léguas que separavam Mossoró daquela comunidade. E precisava de um planejamento bem maior. E como acontecia:
               Nas férias escolares, algumas famílias se preparavam para passar meses na praia de Tibau. Dias antes, começavam as arrumações. Em sacos e trouxas eram guardados objetos caseiros, redes, roupas, lençóis e alimentos.
               No dia marcado, a família se levantava cedo. Às seis horas, o carro-de-boi estava pronto. A capota de esteira feita com palha de carnaúba, protegia os viajantes contra o sol e a chuva. Puxado por três a quatro juntas de boi, sendo a primeira ao pé do carro, a mais forte. Ligadas por um cambão - trave que passava por cima dos pescoços, formando a parelha. Esse cambão também era chamado de “canga dos bois”. Dois paus de madeira forte enfiados no cambão, ficavam de cada lado do pescoço da rês, dificultando os movimentos da cabeça. Na longa viga, saída do centro do carro, o timão, atrelavam a parelha e, no cabeçalho, prendiam a canga.
               O carreiro portava relho e vara com ferrão para tanger os animais. Em geral, viajava sentado numa das quinas, à frente da carroceria, com as pernas para fora. Levava um jovem companheiro, montado num burro, que cavalgava à frente ou atrás da viatura. Atendia a mandados e tratava das rezes.
               Embaixo do estrado, eram pendurados dois grandes chifres – um com sebo e outro com carvão vegetal pulverizado. A mistura dessas substâncias era colocada nos eixos das rodas. Quando em movimento, produzia grande rugido e evitava incêndio.
               Preso ao veículo, haviam dois sacos de couro curtidos, com gargalos e tampas, cheios de água. Serviam aos passageiros e aos animais. No estrado além dos pneus dos lados, fixavam um banco à frente e dois atrás, sendo um de cada lado.
               Após o café da manhã, cada pessoa, carregando sua bagagem, tomava o transporte. Pouco depois das seis horas , partia-se, ante os gritos aboiantes do carreiro: Ei, boi! Repetia esse grito a todo instante. O soar do eixo, rodando, era ouvido ao longe. Assim a comitiva deixava a cidade, numa viagem que duraria o dia todo. Às 10 horas e meia, davam uma paradinha para o almoço, normalmente num sítio, no lugar Grossos. Os bois eram desencangados, levados a beber água, pastar e descansar.
               Às duas e trinta da tarde, atrelavam outros bois e partiam. Às cinco horas já se avistava Tibau, mas era preciso outra meia hora para se chegar ao destino.
               As casas em sua maioria eram de taipa, alpendradas, cobertas de palha de carnaúba, e rebocadas de barro amarelo. Da cacimba rasa no quintal, fluía água claríssima. Os recém-chegados tratavam de armar as redes e procurar acomodações.
               A praia de Tibau era rica em peixes e camarões, apanhados em tresmalhos. Pescadores trabalhavam apenas duas vezes por semana. O resto da semana passavam tomando cachaça.
               Terminada as férias, a família regressava da mesma maneira. As areias das dunas, de tonalidades diversas, ofereciam paisagem sui generis ao visitante.
               Era assim que se viajava a Tibau nos anos vinte, numa descrição bucólica.
               
               
               

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 Réquiem a Nilson Gurgel - 03 de Julho de 2016 às 10:41

               Requiem aeternam dona eis!
               
               
               Viveu intensamente sua vida, sem medo de ser feliz. Teve vitórias e fracassos, alegrias e tristezas, emoções e decepções, mas nunca perdeu a alegria de viver. Era assim Nilson Gurgel. As vicissitudes da vida, tal qual o bambu dos ensinamentos chinês, o dobraram, mas nunca o quebraram. Não foi perfeito (ninguém o é): errou muito, magoou pessoas que o amavam, mas também foi muito magoado por pessoas que amava. Perdoava a todos, não guardava mágoas no coração. Ajudou a muitos que necessitavam, não se apegou a bens materiais.
               Conheci-o logo que cheguei a Mossoró em 1998 e tornamo-nos irmãos. Frequentava minha casa como se fosse a sua. Eu sempre lhe dei essa liberdade. Sempre que estava em Mossoró, nos finais de semana, bebíamos e comíamos como se fosse uma eterna festa. Dava cambalhota na piscina como se fosse um menino. Adorava exibir as suas habilidades físicas. Gostava de boas músicas e dividíamos sempre esse prazer. Um dia me presenteou com um CD de músicas que tinha gravado, em cujo rótulo, cuidadosamente preparado, estava escrito: “Recordar é viver duas vezes. Como quero ser lembrado daqui a cem anos quando morrer, se morrer. Nilson, Asuncion-PY – 08/2009”. Enquanto escrevia essas linhas, ouvia as músicas com as quais ele gostaria de ser lembrado. Foi a maneira que encontrei para senti-lo novamente ao meu lado.
               Amava os cavalos. Cavalgar era terapia para ele. Fazia grandes percursos em companhia de outros aficionados, em dias maravilhosos de relaxamento e prazer. Esses dias eram realmente inesquecíveis, motivo de resenhas para muito tempo.
               Tão intensamente viveu que foi preciso uma série de males simultâneos para pôr fim a sua vida. Apegou-se a vida enquanto pode. Mas um dia foi vencido e a fortaleza, que era o seu corpo físico, definhou. Já não lembrava mais o Nilson Gurgel que todos conheciam. Magro, sem cabelos e sem força para se deslocar, sequelas da quimioterapia, sofria mais pela imobilidade do que pelos males que o consumia. Até que um dia entregou sua alma a Deus. O seu corpo foi sepultado no solo de Mossoró, terra que tanto amou.
               Como diz a frase latina que encabeça esse texto, “que Deus te dê descanso eterno”, meu amigo. Descanse em paz!
               

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 Notas avulsas sobre Mossoró do passado - 22 de Maio de 2016 às 15:36

               Em velhas atas da Câmara Municipal de Mossoró do início do Século passado, pescamos algumas informações, reminiscências da cidade, que nos dão exata dimensão do seu cotidiano. As decisões tomadas pela edilidade, como era a cidade na época, quais os seus moradores de destaque e muitas outras curiosidades que ajudam a conhecer como se formou a Mossoró de hoje.
               Através desses documentos ficamos sabendo, por exemplo, que em 1905 a cidade era formada por 920 casas, entre térreas e sobrados, excetuando-se desse número os seguintes edifícios: Igreja Matriz, Igreja Coração de Jesus, Capela da Conceição, Cemitério Público e Capela de São Sebastião, Mercado Público, Matadouro, Casa de Detenção, Colégio Diocesano, Casa de Aulas Municipais, um colégio em construção e o edifício da Loja Maçônica 24 de junho. Dessas casas, 620 eram de tijolos, cobertas de telhas e 300 de taipa.
               Numa ata datada de 17 de janeiro desse mesmo ano tomamos conhecimento de que a Intendência (Prefeitura) elevou a verba da Limpeza Pública para 2.000$, dois contos de réis, e renovou o contrato com Antônio Pompílio que há nove anos vinha sendo contratado. Assinou contrato também para a iluminação pública que era constituída de 60 lampiões a gás e postes em seus pontos convenientes. Há uma informação interessante sobre o uso dos lampiões. Os mesmos seriam acesos três dias depois da lua cheia até cinco dias depois da lua nova. Em noites de lua cheia não era preciso acender os lampiões pois a lua clareava mais que os mesmos. No contrato ainda dizia que os lampiões deveriam ser mantidos limpos, asseados e eficazes. Para que isso acontecesse, existia a figura do Acendedor de Lampiões. Toda tarde aquele profissional seguia pelas ruas, ‘a boquinha da noite”, levando uma escada e um galão de querosene, abastecendo os lampiões, limpando a fuligem e acendendo os mesmos. Na manhã seguinte seguia o mesmo trajeto apagando os que permaneciam acesos, menos nos dias mencionados acima ou quando estava chovendo.
               A 30 de julho o Decreto 6.059 criou uma Brigada de Cavalaria da Guarda Nacional na Comarca de Mossoró.
               Tomamos conhecimento também que em 10 de agosto, ainda do ano de 1905, João Dionísio Filgueira, Sebastião Fernandes, Antônio Filgueira Filho, Francisco Tavares Cavalcanti, respectivamente Juiz de Direito, Promotor Público, Presidência da Intendência e Vice-Presidente, além do corpo comercial, pessoas gradas do município, enviaram memorial ao Exmo. Sr. Presidente da República e Exmos. Ministros, reivindicando a construção da Estrada de Ferro de Mossoró. (A Estrada de Ferro de Mossoró teve o seu primeiro trecho inaugurado em 1915, ligando Porto Franco à Estação de Mossoró – hoje Estação das Artes).
               Em 08 de dezembro inaugurava-se a capela de Nossa Senhora da Conceição, construída no governo do Pe. Moisés Ferreira, sucessor do Pe. João Urbano na paróquia de Mossoró. A capela foi inaugurada nessa data para comemorar o cinquentenário do Dogma da Imaculada Conceição. Nesse mesmo dia, e com a denominação de “Bilhar Eureka”, inaugurou-se na cidade uma casa de diversão e jogos lícitos, de propriedade e sob a gerência do Sr. Raimundo Couto.
               Nesse ano de 1905 o município teve uma arrecadação de 24:100$000 e uma despesa de 23:100$000. Foi um ano seco, sem inverno. O ano entrou com o povo sentindo as consequências desastrosas da seca do ano anterior. Em 1905 apenas o mês de março foi chuvoso. Em seu livro “Secas contra a Seca” Felipe Guerra Registrou:
               “Finda-se o ano sem indício de inverno; entretanto, o gado conserva-se bem, há pastagem e aguadas. Os gêneros continuam abundantes e por preços baixos. Admira como um só mês de inverno tenha trazido tanta facilidade de vida e abundância no correr do ano”. Em Mossoró choveu 463 mm, naquele ano.
               São desses pedaços de informações que construímos a História de Mossoró.
               

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 Raimundo Fernandes - 15 de Maio de 2016 às 08:31

               Nasceu em 02 de junho de 1910, sendo filho de José Fernandes Chaves e Maria Adília Fernandes. Foi batizado no dia 15 do mesmo mês e ano, na cidade de Pau dos Ferros/RN, tendo como padrinhos a Virgem Santíssima Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Pau dos Ferros e seu primo legítimo Rev. Pe. Leão Fernandes.
               Em 1915, em meio a grande seca que assolava o Nordeste brasileiro, a família resolveu se mudar para o Amazonas, a convite do tio Anfrísio que por lá morava desde criança, prometendo que o Amazonas era uma terra de muita beleza e fartura. A viagem foi em um navio carregado de retirantes sertanejos para o Amazonas. Viajaram na 3ª classe, no porão do navio, quase que empilhados, pois o navio estava superlotado. No quarto dia de viagem chegaram ao Pará. De lá partiram para o alto Purus, em outro navio, até chegar ao seringal Itatinga, destino final.
               Raimundo Fernandes viveu no Amazonas dos cinco aos doze anos.
               Com a crise da queda do preço da borracha em 1920, o tio que os tinha acolhido, veio a falência e assim a família resolveu voltar ao torrão natal. Embarcaram no navio “Benjamin Constant” em 1922, chegando ao Sítio São José, localizado a 12 Km de Pau dos Ferros, entre as serras de São Miguel e Luís Gomes, no dia 20 de fevereiro de 1922.
               Em 1923 os pais mandaram Raimundo para estudar em Pau dos Ferros, em casa de Ezequiel Fernandes. Passou, no entanto, pouco tempo nessa casa, pois Ezequiel tinha sido convidado por Alfredo Fernandes para trabalhar em Mossoró. Raimundo passou a morar na casa de Osório Sena, cunhado de Ezequiel. Estudou no Grupo Escolar Joaquim Correia com o professor Joaquim Noronha.
               Em 1925 veio morar em Mossoró a convite de Alfredo Fernandes, passando a morar em sua casa, na Alberto Maranhão, vizinho a Igreja de São Vicente. Foi trabalhar nas empresas do mesmo. Fazia de tudo: abria os armazéns, fechava, varria, passava telegrama, tirava cópias, passava índice, quebrava e costurava sacos de ceras, lavava garrafas da fábrica de bebidas e espanava o escritório. Depois passou a permanecer mais tempo no escritório ajudando o novo Guarda livro a escriturar Borrador e passar o Caixa a limpo. Posteriormente passou a ocupar o cargo de Caixa. De 1927 a 1928 passou a fazer parte da contabilidade. No escritório trabalhavam Sinval, Elias Fernandes, o gerente Ezequiel Fernandes e Pedro Fernandes, como supervisor geral. Nessa época, os armazéns e escritório de Alfredo Fernandes localizavam-se na Av. Getúlio Vargas.
               Em 1930 o escritório e as instalações da Firma foram transferidos para a Av. Alberto Maranhão.
               Em 24 de junho de 1933 casou-se com Alzenita Fernandes Vital, com quem teve 10 filhos: 1- José Fernandes Vidal, 2 - Paulo Fernandes Vidal, 3 - Francisco de Assis Fernandes, 4 - João Batista Fernandes, 5 - Raimundo Fernandes Júnior, 6 – Lúcia Maria Fernandes Paes, 7 - Inês Maria Fernandes de Medeiros, 8 - Alzenita Goretti Fernandes Vieira, 9 - Jacinta Maria Fernandes da Silveira e 10 - Maria de Fátima Fernandes.
               Em 1948 faleceu no Rio de Janeiro o chefe Alfredo Fernandes. Seguiu-se a reestruturação da empresa. A partir daí passou a ser dirigida por uma diretoria composta de oito sócios: Antônio Cristalino, Ezequiel Fernandes, Pedro Fernandes Ribeiro, Aldo Fernandes, Francisco Sena, Diogo Cabral, Aldemir Fernandes e Raimundo. Tornando-se sócio, alterou o nome para Raimundo Nonato Alfredo Fernandes, mantendo assim o nome do fundador da empresa e a razão social “Alfredo Fernandes e Cia Ltda.
               Posteriormente a empresa se transformou em sociedade anônima, tendo Ezequiel Fernandes e Pedro Fernandes Ribeiro na presidência. Raimundo exercia um cargo da diretoria. Com a morte de Ezequiel e Pedro Fernandes, a empresa passou a ser presidida por Francisco Sena.
               Viveu uma vida dura, mas compensadora. Em 24 de junho de 1978 comemorou 45 anos de casados com oito filhos vivos e 32 netos. No começo de julho daquele ano sofreu um derrame perdendo a fala. Recuperou-se após quatro dias hospitalizados.
               No dia 30 de junho de 1979 Raimundo Fernandes deu o seu último expediente como funcionário da Cia Alfredo Fernandes Indústria e Comércio, onde trabalhou por 54 anos.
               Raimundo Fernandes faleceu no dia 04 de julho de 1982 na rua Tiradentes, em Mossoró, às 19 horas. Era domingo. Ao seu redor estavam os filhos Júnior, Inês, Goretti, Jacinta e Fátima. O velório durou a noite inteira na própria residência. No dia seguinte, após a missa de corpo presente, celebrada pelo bispo D. Gentil, o corpo de Raimundo foi levado ao Cemitério São Sebastião, cumprindo-se assim o que ele sempre afirmava: “Só saio da minha casa na Tiradentes para o Cemitério”.
               

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 As Mezinhas do nosso Sertão - 01 de Maio de 2016 às 09:50

               Mezinhas ou Meizinhas significam remédios caseiros ou manipulado em farmácias do interior, geralmente com o uso de ervas medicinais. Foram, por muitos e muitos anos, os únicos remédios acessíveis ao homem do campo, principalmente no alto Sertão potiguar.
               O início da ocupação do Sertão nordestino deu-se por volta de 1701, quando uma Carta-Régia determinou a retirado do rebanho das terras litorâneas. As 10 primeiras léguas (aproximadamente 60 Km), a partir da quebra do mar, estavam reservadas para a plantação de cana-de-açúcar. Restava, pois, aos criadores de gado o sertão.
               E foi no rastro do gado que o sertão foi colonizado. Os pecuaristas aproveitavam os leitos secos dos rios como estradas para conduzirem as suas boiadas e quando chegavam num lugar plano, fora da faixa proibida, construíam os seus currais, erguiam as suas cabanas, fixavam-se na terra.
               Para a construção das cabanas primitivas, o couro do boi era usado em grande escala. De couro eram as portas e janelas dos casebres, o lastro das camas rústicas, os baús de guardar objetos e roupas, os depósitos para a farinha, os arreios dos animais, o chapéu do vaqueiro, o gibão que os protegia, o peitoral que protegia igualmente os animais dos espinhos e pontas de galhos secos.
               E por muito tempo o Sertão viveu praticamente isolado do litoral, ou como podemos até dizer, da civilização, mantendo assim puro os seus costumes, suas rezas e suas tradições.
               Os dias do Sertão eram obscuros e longos, pois ainda se vivia ali, a era das curas pelas rezas, dos exorcismos e de tantas obras práticas do charlatanismo. Era muito comum as criaturas adoecerem e morrerem de males desconhecidos.
               Os remédios de botica, como eram chamadas as farmácias de antigamente, eram raros e caros, longe do poder aquisitivo do sertanejo. Sobrava, portanto, os remédios caseiros ou mezinhas. As folhas, as raízes, sementes e cascas desempenhavam largas influência na atividade da medicina sertaneja. A maior parte dos remédios era mesmo de origem vegetal.
               Na realidade o que se sabia é que havia um chá para cada doença, uma indicação, um recurso de cuja eficácia não cabia levantar suspeitas. Sua variedade era imensa e rica como a própria flora, donde vinha. O fedengoso, por exemplo, deixou fama, assim como a jurubeba branca. O cozimento de raiz de velame. A batata de purga. O cardo santo, para dor de garganta. A infusão de malva e agrião, para mal do peito. O chã de cravo de defunto, para doenças dos olhos. A cabacinha e a cabeça de negro, como depurativos. Cebola branca, serenada, para catarro. Chá de alho para gripe. Mel de juá, também indicado para doença do peito. Cumaru e sucupira para reumatismo. Mossoró para enfraquecimento. Babosa, (nove folhas lavadas em nove águas) feito mel com açúcar branco para escarro de sangue. Capeba, para doenças do fígado. Jindiroba, para reumatismo. Mão-fechada, para dor de mulher. Catucá, calmante, difumante, jatobá, para os rins e vias respiratórias. Milona, para o fígado. Alcançus para tosse. Mastruço, com leite, para a bronquite. Leite de pião, para mordida de cobra. Língua de vaca, para o baço. Melancia da praia, para dor de lado. Jucá, para espalhar o sangue. Maxixe do Pará, (a flor) para puxado. Casca de jabuticaba, para dor de barriga. Velame branco, para afinar o sangue. E mais rapa de juá, folha de abacate, capim santo, folas de laranjeira, como remédios de casa, para todas as indicações. Papa de araruta par acurar ulcerações gástrico-intestinais.
               Haviam ainda as garrafadas, preparadas por especialistas, e que segundo se dizia, arrancava o mal pela raiz.
               A relação de doenças era de meter medo: quebranto, olhado, espinheira caída, dor de veado, mal das juntas, puxado, nó na tripa, ar encausado, cupim, boqueira, fininha, impinge, interiça, cobreiro, sete couros, doença do peito, gafeira, chega-e-vira, dor na boca do estômago, tontura, brotoeja, pereba, pilora, calor de figo, farnezim, dor de mulher, curumba, fogo selvagem, bexiga lixa, caminheira, campainha caída, (também espinhela) mau olhado, dor de bentosidade, ventre caído, bucho quebrado, cabeça de prego, pé triado, mazela, braço desmentido, galco, quebradura, fuá, gota serena, Sapiranga, terçol, andaço, morrinha do corpo, macacoa, sarampo, esquinência, doença interiora, câimbra de sangue, esquentamento e erisipela. E ainda podia-se morrer de: bexiga, garrotilho, estopor, moléstia de ar, moléstia de vento, frouxo, cancro, antrás, gálico, urinas doces, sarampão, tosse, força de sangue, paridura, vício, inchaço, catarrão, maligna, espasmo, sezões, gota, inchaço, puxado, moléstia do peito, ferida na garganta, chagas, maleita, ferida na boca, lombriga, defluxo, pontada, fluxo de sangue, frouxo de sangue, doença gálica, pontada no ouvido, sezões malignas, tumor nas costas, humor recolhido, moléstia do vento, estrepada, caroço na barriga, velhice, inflamação no estômago, cobra, feridas recolhidas, tuberto, endosso, gota coral, caroço no rosto, sarampo, umas cacetadas, uma inflamação nos bofes, quebrandura descida, turo, mordidela de cascavel, uma inchação nos peitos, frialdade, hemorroides, tísica, parto, um tumor, de repente, uma queda, afogado, feridas gomosas, moléstia na barriga, retrocesso de sangue, lufada, uma ferida, dor nos ouvidos, hidrófico, feridas espasmódicas, inchação na cabeça, inflamação no fígado e estupor.
               Assim se curava ou morria o homem sertanejo até bem pouco tempo atrás. Mesmo nos dias atuais, encontramos nas feiras livres muitos dos elementos descritos aqui como medicinais: garrafadas, folhas, raízes e sementes. É a tradição sertaneja desafiando a modernidade.
               

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 Ezequiel Fernandes - 25 de Abril de 2016 às 22:14

               Nasceu a 9 de abril de 1892, na cidade de Pau dos Ferros/RN, sendo filho legítimo de Hipólito Cassiano de Souza e D. Francisca Fernandes de Souza. Fez os primeiros estudos em sua cidade natal, mas aprendeu apenas o necessário para realizar o seu grande sonho que era trabalhar no comércio, ao lado do seu pai e de um irmão, Francisco Fernandes de Souza, constituindo-se a firma Souza & Filhos.
               Em 1913, com apenas 21 anos de idade, Ezequiel resolveu casar-se. Escolheu para esposa uma prima, Ester Fernandes, de cujo enlace resultou em três filhos: Laete Fernandes, Luís Fernandes e Aldo Fernandes.
               Em 1923 recebeu um convite do seu primo Alfredo Fernandes, para trabalhar com ele em Mossoró, como sócio da firma Alfredo Fernandes & Cia. Aceitou de imediato o convite e assumiu, desde então, a gerência dos negócios. Era um homem trabalhador, já com experiência em comércio, gostava de madrugar e tinha, como se dizia na época, tino para o negócio. Com essas qualidades, deu aos negócios o desenvolvimento mais satisfatório, de modo que já em 1927, a firma Alfredo Fernandes & Cia. dominava toda a zona Oeste, atingindo até os estados da Paraíba e do Ceará. Nesse mesmo ano uma tragédia abalou a sua estrutura familiar, com a morte da sua esposa, Ester Fernandes, deixando-o profundamente abalado. E aquele ano de 1927 seria um ano terrível para Mossoró com a invasão da cidade pelo bando de cangaceiros chefiados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o que muito atrapalhou os negócios.
               Em 1928 Ezequiel Fernandes casou-se novamente com sua prima, D. Guiomar Fernandes de Oliveira, mas não tiveram filhos.
               Raimundo Fernandes, amigo e colaborador de Ezequiel na sua empresa, narrou um fato interessante que foi registrado por Walter Wanderley em seu livro “Gente da Gente – Memórias”, editado pela Pongetti. Disse que durante a grande seca de 1932, Ezequiel Fernandes criou na empresa que dirigia uma verba de socorro aos flagelados, distribuindo víveres, ajudando os necessitados. Como bom sertanejo e de coração aberto, sabia da necessidade daquela gente trabalhadora, obrigada a mendigar por uma situação alheia a sua vontade.
               Com a saúde debilitada, viu-se obrigado a residir em Fortaleza, onde tinha uma melhor assistência médica. De lá orientava os negócios da firma através do seu substituto Pedro Fernandes Ribeiro, outro esteio da empresa. Homem ativo, era, Ezequiel, de uma memória sem limite. Tinha tudo na cabeça, inclusive dados referentes aos balanços, posição dos correntistas, de modo que, quando se aproximava a época do balanço geral, ele dizia o resultado dos negócios em números bem aproximados. Quando acontecia haver qualquer discordância entre o que ele dizia e a contabilidade da firma, afirmava cheio de convicção: - “Procurem que deve haver algum engano”, o que normalmente acontecia.
               Vítima de uma moléstia terrível, que desafiou todos os recursos médicos da época, Ezequiel Fernandes faleceu em 25 de janeiro de 1966, deixando saudades entre familiares e amigos e grande exemplo de trabalho, perseverança e honestidade. Deixou um herdeiro dentro do seu negócio, na pessoa de seu filho, Aldo Fernandes de Sousa, que com os sócios passou a dirigir a empresa.
               A Cidade de Pau dos Ferros, sua cidade natal, o homenageou emprestando o seu nome a uma Praça local. Os seus sucessores e diretores da Cia. Alfredo Fernandes Indústria e Comércio mandou confeccionar, no Rio de Janeiro, um busto de seu chefe desaparecido, que foi colocado na referida Praça, na sua terra, para orgulho dos seus conterrâneos. Mossoró também lhe rendeu homenagem emprestando o seu nome a uma rua localizada no bairro Abolição.
               Foi, Ezequiel Fernandes, um homem querido e admirado, tanto no lar como na sociedade, nas terras onde viveu, trabalhou e deixou grande exemplo. Mossoró guarda a sua memória.
               

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